E se eu morrer amanhã?
Sobre envelhecimento e sexualidade feminina
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Helena é viúva e está prestes a completar 80 anos. Mora sozinha, mas tem a companhia do seu gato. À primeira vista, ela parece uma senhorinha frágil, mas esconde algo que sua família nem imagina: tem uma vida sexual ativa. E bem agitada, inclusive. Helena e a personagem do livro E se eu morrer amanhã?.
A obra chegou a mim por indicação de uma amiga. Ela me chamou no WhatsApp, muito entusiasmada, dizendo que eu PRECISAVA ler, que tinha a minha cara, que estava adorando porque a fazia pensar várias coisas. Perguntei do que se tratava e ela foi dizendo: “amiga, é a sua cara, é sobre uma mulher madura e desejo sexual”.
De fato, me interessei.
Sempre acho curioso quando algo lembra tanto uma pessoa a ponto de alguém sentir urgência em dizer isso. Como se fosse impossível não compartilhar. Tem gente que me manda objetos de girafa com a legenda “é a sua cara” — gosto de pensar que, quando eu morrer, alguém vai ver uma girafa e pensar em mim. Acho que, no fundo, a gente quer deixar esse tipo de rastro: não algo grandioso, mas algo íntimo o suficiente pra continuar existindo na memória de alguém.
O título do livro é uma pergunta que me visita com mais frequência do que eu gostaria de admitir: e se eu morrer amanhã?
Não como um pensamento mórbido, mas como um pequeno empurrão interno. Uma espécie de lembrete inconveniente de que o tempo não negocia. É essa pergunta que às vezes aparece justamente quando algo desperta o corpo, um desejo, uma curiosidade, uma vontade meio imprópria, como quem diz: você vai mesmo adiar isso? Como se o corpo soubesse antes da gente que a vida não foi feita pra ser vivida em modo de espera.
De início, foi difícil engrenar na leitura por ser escrita em português de Portugal, mas ao chegar na página 32 e me deparar com esse trecho:
“Os filhos estão sempre um pouco alheados da verdadeira relação entre os pais. Não querem ter demasiada informação sobre a intimidade dos progenitores, por decoro e respeito, pelo que não fazem perguntas, acabando por se deixar distrair pelas rotinas. Por seu lado, os pais agradecem não terem de se justificar, guardando os seus problemas atrás de uma porta fechada a sete chaves. Não havendo gritos, nem discussões, escândalos ou violência, um casamento passa sempre por estável. E, para a grande maioria das pessoas, está vel é bom.”
Percebi que seria um livro que me traria algumas reflexões.
Não quero aqui fazer uma resenha — isso você encontra no Google. Para além de ser uma leitura divertidíssima (eu me peguei dando gargalhada alta em vários trechos), quero focar nas provocações que ficaram em mim.
Em como as pessoas, ao se separarem — ou até diante da possibilidade —, especialmente mais velhas, sentem como se fosse o fim da vida. Como se houvesse uma idade limite para recomeçar. Mas há vida pós-divórcio. E a gente só acredita nisso quando atravessa. Helena é prova, ok, literária, disso. E eu aqui da vida real, posso te garantir que do outro lado há muita vida.
Em como as mulheres se anulam dentro de um casamento. Há um trecho em que a personagem descreve a vida de casada pontuando cada revelação com o nome do marido: o Alberto. A repetição não é gratuita, ela martela no leitor a presença constante, quase sufocante, desse outro que vai ocupando todos os espaços e limitando os dela.
A velhice ainda é um território cheio de preconceitos. Eu nunca tinha parado para pensar no sexo na terceira idade com alguma profundidade. Talvez porque eu tenha um pai de 68 anos que não corresponde em nada ao estereótipo de “idoso”, não carregasse tantas ideias prontas. O corpo muda, claro. Chega o dia em que vamos precisar de ajuda para fazer o que antes fazíamos sozinhos. Mas imagino que a gente vai se adaptando e isso não precisa significar o fim de uma vida, muito menos do desejo.
O mundo, principalmente os homens, ainda não está preparado para mulheres que desejam. Mulheres que sabem o que querem, o que gostam, e que não pedem desculpa por isso.
Sonhos não servem para serem adiados, muito menos na maturidade.
Como disse, o livro é divertido demais. Sem moralismos, mas com muita humanidade e até com pitadas de exagero. A vida sexual de Helena é mais agitada do que a de muitas mulheres que conheço, e, em alguns momentos, confesso, mais do que a minha própria agenda conseguiria acompanhar sem pedir um intervalo estratégico. Helena não conhece o mapa da fome.
Ao terminar a leitura, ficou pra mim uma sensação gostosa, de como quando você abre a janela e sente o vento arejar o ambiente, sabe? Ou de quando chega na praia e se vê diante do mar. Aí você fecha os olhos e sente a brisa no rosto, respira fundo. E se dá conta de que a vida é imensa, extraordinária e ordinária ao mesmo tempo, fica uma certeza simples, mas poderosa: cada dia vale a pena se a gente se permite viver as possibilidades, seja aos 20, 30, 40, 50, 80 anos.
Alguns trechos do livro:
“Cada dia é menos um dia de vida, e já não tenho nada a peder”
“Enquanto tivesse total controle sobre o corpo e a mente, estava determinda a aproveitar cada dia como se fosse o último, porque, na realidade, podia mesmo ser.”
“Ninguém é inteiro sem prazer.”
“Com o tempo, aprendeu a parar de se lamentar. O passado estava escrito nas pedras e não podia ser mudado. O futuro era algo com que, na sua idade, não podia contar. Só tinha o presente. Um presente onde não cabiam lamúrias e onde podia ser quem quisesse.”
“Ninguém consegue dar ao outro tudo aquilo de que ele precisa. Afeto, carinho, amizade, aventura, sexo, emoção, estímulo e segurança… é impossível dar tudo isso, todo o tempo.”
“A partir de uma certa idade, não se pode adiar nada. Não há depois faço, amanhã ligo, um dia vou. A vida tem infinitas paragens, mas corre em sentido único. Nunca espera, ne volta atrás. O que quer que queiramos viver tem de ser vivido agora.”
Entre palavras e ideias
Pra quem é novo por aqui: esse cantinho é dedicado aos conteúdos que consumi durante a semana, gostei muito e acho que vale a pena você consumir também. É basicamente meu histórico de abas abertas transformado em serviço público.
📩 O travessão e a IA - gostei demais dessa reflexão e combina muito com o que penso. Eu uso muito travessão e passei a me policiar por conta desse burburinho, mas depois desse texto acho que não vou me preocupar.
📩 O feminino e a escrita - há 3 anos, exatamente quando me separei, durante um ano, resolvi ler só mulheres. Recomendo. Inclusive, esse livro CArderno Proíbido, citado na news, é incrível e foi uma das minhas leituras na época.
📩 40 kg de batata frita - esse texto foi um conforto pra mim, pensei: ainda bem que não é só na minha casa que o papel higiênico acaba sem aviso.
📩 Devoradores de Estrelas - também fui ao cinema ver o filme com meus filhos por indicação da Marinando e amamos.
Até semana que vem, gente!
Com afeto e coragem,
Gabi Miranda



"Helena não conhece o mapa da fome." Que frase, essa.
Eu também enviei à Filipa a ligação para o seu post. Acho que ela vai gostar muito. Ainda não li este livro, mas agora fiquei com muita vontade de o devorar ☺️