“Eu não sei flertar.”
Revelou-me uma amiga numa conversa pelo Whatsapp.
Eu sabia do que ela estava falando. Há dois anos, cogitei comprar um boné escrito exatamente: eu não sei flertar. Porque não sabia mesmo. A gente perde o costume depois de muito tempo numa relação. E não deveria.
Essa amiga, que estava de férias na Europa, ficava me enviando fotos de homens bonitos que cruzavam o caminho dela – como se eu, aqui do Brasilzinho, pudesse fazer algo a respeito. Ela diz que anda admirada comigo porque, de uns tempos pra cá, voltei a flertar.
Contei de uma noite dessas em que fui a um pub e eu e um rapaz ficamos naquele joguinho visual quase a noite inteira. Até que ele sumiu do canto onde esteve plantado boa parte do tempo. Quando meu radar humano o localizou de novo, fui até ele e tomei a iniciativa:
- Fugindo do meu campo de visão?
Ele riu. Eu ri. E começamos a conversar.
(eu sei, você tá curiosa(o) e quer saber o resto dessa história, conto ao final dessa edição. foca aqui antes)
Minha amiga achou a cena toda ousada. Confesso que até eu achei. Era a primeira vez que fazia aquilo. Foi um raio de coragem que caiu em cima da minha cabeça. Naquele dia, só queria distrair meu coração. Ela disse que adoraria ter essa ousadia. Que estava cercada de homens lindos em Portugal, mas não sabia nem por onde começar. Além de não saber flertar, confessou que tinha medo da rejeição. Quem não tem? Acho que até a Gisele Bündchen sofre desse mal.
Assim como eu, ela também saiu de um casamento longo. E toda mulher que passou por essa situação, sabe: voltar ao “mercado” (nome horroroso, eu sei) é um susto. E quando somos mães então... A gente não se reconhece. Nem lembra mais de que prato gosta. Carne bem ou mal passada? Até isso parece uma pergunta difícil. Com o tempo, você percebe que quem come de tudo não passa fome. Mas também aprende a escolher direito… pra não acabar com uma intoxicação alimentar.
Lembrei de um conselho que recebi de outra amiga, quando soltei o clássico “eu não sei flertar”. Ela respondeu algo do tipo:
- Como não sabe? É só usar a linguagem visual.
Fácil, né? Como se a gente fosse uma espécie de Julia Roberts com pós-doutorado em olhares.
Fiquei pensando no que dizer para minha amiga lá em Portugal. E disse:
Amiga, olha só... você está aí curtindo férias, o que de pior pode acontecer se o flerte não for correspondido? Aproveita. Daqui a pouco você vai embora mesmo, nem vai ver mais o cara. E tá tudo bem.
Acrescentei que essa era o EU de hoje falando. O EU antigo, provavelmente, teria fingido que não viu o moço.
Depois fiquei pensando que eu devia ter emendado no conselho:
e se você for correspondida? O flerte vingar? O que de melhor pode acontecer? Já pensou? Se for a coisa mais incrível que você viver?
Só de imaginar, minha cabeça já inventa mil roteiros, todos com trilha sonora e final feliz (mesmo que só dure uma noite). Romântica, eu?!
O que é flertar, afinal?
Pra mim, o flerte não exige resultado. É acender um interesse que pode não virar nada. E tudo bem. É o exercício da disponibilidade, da troca silenciosa, da leveza, de um olhar mais demorado, um sorrisinho que não precisa de legenda.
E acho mesmo que a gente nunca deveria parar de flertar. Nem estando num casamento. Não estou falando só de flertar com o cônjuge. Também. Mas de flertar com a vida, sabe?!
Flerte não é compromisso. É insinuação. É deixar um rastro, não um endereço.
E às vezes, só isso já basta pra lembrar que ainda estamos vivos.
Pílulas de inspiração
Por que é tão difícil para a mulher tomar a iniciativa?
Porque somos condicionadas a nos tornar sujeitas pelo olhar de um homem que nos escolha.
Valeska Zanello, psicóloga e filósofa que estuda as relações entre homens e mulheres, usa uma metáfora ótima para explicar isso — a da “prateleira do amor” (e ela tem um livro AQUI com esse nome que vale muito ler pra entender melhor essa dinâmica). A autoestima da mulher é construída e validada pela possibilidade de ser escolhida por um homem. Aprendemos que somos desejáveis se tivermos alguém nos desejando.
Só que isso é perigoso, porque nos torna vulneráveis (e com medo da tal rejeição). Se é preciso ser escolhida, nem sempre importa tanto quem nos escolhe. Quem aí já não ouviu uma amiga dizer frases como: “ruim com ele, pior sem ele”, ou “a vida de solteira está difícil, não quero voltar pra pista”? Pois é. Esse tipo de pensamento só beneficia os homens.
Não precisamos esperar sermos escolhidas. Podemos sim escolher. Avaliar o homem física e moralmente. Podemos sim flertar, tomar a iniciativa. E isso não significa que não gostamos de ser cortejadas - uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Ah, e pra quem ficou com curiosidade sobre o resultado do meu flerte citado no início desse texto, não deu em nada. Sinto decepcioná-los. O cara simplesmente não me interessou na conversa. Meu sarrafo está alto ultimamente. Tenho andado com meu radar de red flags ligado. Parto do princípio básico: não lê, só gosta de um estilo musical, fala mal da ex, é de direita…ai preguiça.
Caderno de rascunhos
Notas soltas sobre a criação do meu primeiro livro
Estou há 15 dias sem escrever uma página do meu livro. Tive várias ideias, fiz muitas anotações soltas, mas a vida deu um pinote aqui e não consegui parar. Confesso que também fico esperando ter tempo livre para escrever e é nessa que me saboto, porque nunca terei esse tempo.
Entre palavras e ideias
Tem uma coisa legal para compartilhar que é o jornal “Coletiva News”. Vou deixar a Mari explicar o que é: seis escritoras se juntaram em um movimento contrário, distribuindo exemplares físicos de um universo digital, garantindo que as newsletters também tenham seu lugar ao sol de Paraty.
Os exemplares foram distribuídos na Flip que aconteceu semana passada. Eu não pude ir esse ano, tive que cancelar minha ida de última hora. Mas tudo bem porque estava viajando a trabalho. Mas a Marina e a Andrea (na imagem abaixo) foram e espalharam exemplares do nosso jornal por toda Paraty, inclusive para escritores reonamados que estavam por lá. E o jornal ficou a coisa mais linda. Espia só:




Fazem parte desse projeto:
📩 Marina
📩 Gabi Miranda (euzinha)
Te vejo semana que vem?
Com afeto e coragem,
Gabi Miranda



Deixou a gente curiosa pra não dar em nada??? Ahhhhhhh!!! Sacanagem! Hahahaha! Usa seu poder de ficção pra criar uma história pelo menos, vai? Adorei a edição dessa semana. Eu acho que não sei mais flertar também. Embora muitas vezes eu esteja sendo legal e os caras pensem que estou flertando... paciência...
eu tenho uma amiga que tem um poder incrível para flertar. ela olha e o cara vem... nunca vi igual... eu não tenho problema em ir falar com o cara como você fez, já fiz algumas vezes, mas tenho que estar "no clima", às vezes tenho preguiça rs.
Também fiquei muito tempo casada e tenho 40+. Tem acontecido muito de eu começar a flertar e do nada baixar o olhar, às vezes é involuntário, aí a sintonia se perde... não sei porque tenho feito isso.
O olhar é tudo. o olhar é TUDO! O olhar diz para o outro que ele pode chegar, que você está a fim. E não olhar diz tudo também. Quando eu não quero pegar panfletos que estão entregando na rua, eu não olho. Quando vejo que alguém vai me abordar e eu não quero falar, eu finjo que não vi. Até quando acho que vou ser assaltada eu não olho para não dar a chance. O olhar dá permissão.
O que eu acho que acontece hoje em dia é que os homens não estão aproveitando essa permissão do olhar... são raros os que vem conversar. Porque depois do olhar, uma das partes tem que tomar a iniciativa.... as mulheres normalmente esperam que seja o homem... é o "padrão". Mas eles não tem feito isso, tem que "escondido" atrás de um perfil de app porque é mais garantido ir para um data certo e não correr o risco de levar um "não". Então se a gente não faz a abordagem, nada acontece. Mas é isso, não ir talvez signifique deixar de ter uma experiência legal. Só perde realmente se não fizer. "O não a gente já tem".