Uma carta para você
Doze anos depois da morte da minha mãe, ainda acho difícil viver num mundo sem ela
Antes de mergulhar no texto, deixa eu te contar uma coisinha: se você apertar o ❤️ aí em cima, em menos de um suspiro ajuda a minha news a chegar a mais pessoas - e ainda enche meu coração de alegria. 😁 E se você comentar no final, vixiii, aí meu coração fica gordo! 🥰 Obrigada por estar aqui — e boa leitura!
Quando você foi embora, eu tinha 32 anos. Eu já não morava mais contigo, estava casada e era mãe. Meu primogênito tinha 2 anos. Teoricamente, eu não precisava mais de mãe.
Eu sempre fui uma menina que tinha medo de tudo. Medo de dormir e não acordar. Medo de escuro. Medo do monstro embaixo da minha cama e dentro do meu guarda-roupa. Medo de colocar a cabeça embaixo d’água. Medo de conhecer pessoas. Ao mesmo tempo que tinha medo de não fazer amigos. Medo de não gostarem de mim. Medo de mudança. Medo de brigar. Medo do homem do saco me levar embora. Medo de dormir fora. Medo de pegar o ônibus Cometa para chegar à casa do meu pai. Medo de parar de respirar (lembra que eu tinha um ataque de pânico e começava a puxar o ar rapidamente e repetidamente?). Medo do meu cachorro fugir e não voltar mais. Medo de agulha. Medo de você não chegar do trabalho. Medo de você morrer.
E s s e e r a o m e u m a i o r e m a i s i n c o n t r o l á v e l m e d o.
Eu tinha 12 anos quando, numa noite, você atrasou um pouco mais para chegar do trabalho e me bateu um desespero imaginando que algo terrível tinha acontecido com você. Eu chorava descontroladamente enquanto a minha irmã, quatro anos mais nova que eu, tentava me consolar. Eu tinha um grande medo de perder você.
Não sei exatamente quando os meus medos foram diminuindo. Mas, um dia, eu perdi você. Eu tinha 32 anos. Teoricamente, não precisava mais de mãe. E tive muito medo de viver num mundo sem o seu abraço, sem a sua oração, sem você na minha arquibancada. Por muito tempo, foi estranho não ter a sua torcida. Afinal de contas, se coisas boas acontecem na vida de uma pessoa, não é sorte — é a mãe que reza por ela.
Fiquei sem chão. E o mundo não parou. O florista continuou vendendo flores. O padeiro amassando pão. O motorista dirigindo o ônibus. Os faróis abrindo e fechando no tempo certo:
verde,
amarelo,
vermelho.
verde,
amarelo,
vermelho.
O carteiro entregando cartas e boletos. O professor ensinando o bê-á-bá. O músico, cantando. Os apresentadores continuavam aparecendo no televisor. O sol apareceu exuberante num céu azul bebê. Tudo parecia exatamente igual. Meu filho andava e pedia por “mamãe” o tempo todo. Eu já era mãe. Eu tinha 32 anos. Teoricamente, não precisava mais de uma.
Os medos tomaram novas formas. Passei a ter medo de perder meus filhos. Meu pai. Meus irmãos. Medo de faltar dinheiro. Medo de não ter saúde. Medo de ficar desempregada. Medo de fazer escolhas erradas. Medo de não dar conta. Medo envelhecer mal. Medo de morrer. jovem. como você. aos 59 anos.
No próximo mês, chegarei à metade dos meus 40 anos. Estou amando viver nessa casa decimal. Brinco que me sinto uma adolescente. E me pergunto: como era para você na mesma idade? Você tinha duas filhas. Era mãe solo. Resolvia tudo sozinha. Teoricamente, não precisava mais de mãe.
Que rosto teria minha mãe
se ainda estivesse viva?
Morreu cedo
aos quarenta
e não lhe vi velhice
como já vejo em mim.
Ver minha mãe mudar,
que ideia tão alheia à imutabilidade desse rosto,
dessa mãe
tão mais moça que eu
que ainda assim não me é filha.
Que rosto teria eu
se minha mãe não tivesse morrido?
Em que espelho olharia,
eu que tão pouco a tive como espelho?
Ou seria eu o espelho
em que ela buscaria sua mocidade?
Mas não há prata
ou chumbo
atrás do vidro
o espelho se desfez
faz muito tempo
e quando penso mãe
há um rosto antigo
ou rosto algum,
o sentimento
apenas.
(Em que espelho, Marina Colasanti)
Entre palavras e ideias
Pra quem é novo por aqui: esse cantinho é dedicado aos conteúdos que consumi durante a semana, gostei muito e acho que vale a pena você consumir também. É basicamente meu histórico de abas abertas transformado em serviço público.
📩 A Marina está arrasando com os conteúdos do Reality Show. Recentemente, ela foi para um retiro de escrita, para o qual até me convidou, mas não deu para ir. Agora lendo sua news pensei: a gente tem que se esforçar mais para fazer o que é importante pra gente. Mas nem sempre a gente vai conseguir. Enfim, essa semana, ela trouxe entrevista com a professora do retiro e o conteúdo está muito rico.
📩 Será que devo dar uma chance para Frankenstein, como dei para O Morro dos Ventos Uivantes? Nunca tinha lido o livro, mas fui ao cinema ver o filme — e gente… fiquei chocada ao descobrir que é uma grande tragédia. Não fazia ideia. Agora: vale muito ver na tela grande. Que casal. Que química dos atores. Margot Robbie e Jacob Elordi. Deixo aqui um aviso de utilidade pública: se você for assistir sozinha, talvez seja prudente evitar o período da ovulação. É um negócio…
📩 Tenho escutado o podcast Você Não Sabe o Que Sofri, da Tati Bernardi, e estou gostando muito. É um programa em que a Tati vai até a casa do convidado perguntar: qual foi a maior dor de amor que essa pessoa já viveu. Já ouvi três episódios e dois me fizeram pensar em como, no fim das contas, todo mundo carrega alguma história que doeu mais do que gostaria de admitir. O terceiro eu ri muito, pois conheci um lado da Elisama Santos que nem imaginava — ela que fala sobre comunicação não violenta, é super brava. Bom demais. Deixo aqui os links para vocês:
Até semana que vem, gente.
Com afeto e coragem,
Gabi Miranda



Que texto lindo! Um palpite que você não pediu: leia O morro dos ventos uivantes (é um dos livros da minha vida). Nenhum filme jamais chegará aos pés!
Que texto delicado e comovente. Acho que não há idade para não precisar de mãe.